IPC 2025: países lusófonos seguem presos a um padrão estrutural de corrupção 

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A corrupção continua sendo um problema grave na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), de acordo com o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, divulgado hoje pela Transparência Internacional. Com uma pontuação média de 35 em 100 e apenas dois dos nove países com nota acima de 50, a CPLP apresenta um desempenho próximo ao da África Subsaariana, região com o pior resultado no índice global, que avalia 182 países. 

O dado mais preocupante, no entanto, não está apenas no retrato atual, mas na trajetória. Apenas dois dos nove países da CPLP melhoraram de forma relevante ao longo da última década, enquanto cinco permaneceram estagnados e dois — Moçambique e Portugal — apresentaram piora significativa. O quadro evidencia que os esforços anticorrupção adotados até aqui não têm sido suficientes para produzir mudanças estruturais e sustentáveis. 

Um ranking desigual, mas um problema comum  

Em 2025, os países lusófonos apresentam desempenhos distintos no IPC, mas compartilham fragilidades institucionais semelhantes. Cabo Verde (62) lidera a comunidade, seguido por Portugal (56) e São Tomé e Príncipe (45). Logo abaixo aparecem Timor-Leste (44) e, já na metade inferior da tabela, Brasil (35), Angola (32), Guiné-Bissau (21) e Moçambique (21). Na última posição do grupo está a Guiné Equatorial (15). 

Apesar dessas diferenças, o padrão é claro: a maioria dos países da CPLP permanece abaixo do patamar considerado aceitável de integridade pública, convivendo com níveis elevados de corrupção que afetam a democracia, o desenvolvimento e o acesso da população a serviços essenciais. 

Tabela com as notas dos países no IPC 2025 e sua evolução na última década


Quem piorou ou estagnou: retrocessos relevantes que aprofundam a crise 

Na lanterna da região lusófona, a Guiné Equatorial (15 pontos, 172ª posição global) continua a sofrer nas mãos de sua família governante. Há quase quatro décadas, os sistemas político, econômico e jurídico do país são controlados pelo presidente Teodoro Obiang Nguema, seus familiares e aliados próximos. Em novembro de 2022, Obiang — o líder há mais tempo no poder no mundo — foi confirmado para um sexto mandato, com 95% dos votos, em uma eleição criticada por observadores internacionais como não livre e injusta. Em janeiro de 2023, um de seus filhos foi preso por suposta corrupção, acusado de vender um avião pertencente à companhia aérea nacional. A falta de transparência na gestão dos recursos naturais, a repressão à sociedade civil e a ausência de instituições democráticas sólidas criam um ambiente propício à corrupção desenfreada.  

Moçambique (21 pontos, 161ª posição) registrou uma queda de 10 pontos desde 2018, evidenciando um retrocesso preocupante. Dados oficiais indicam que 334 novos casos de corrupção foram registrados apenas no primeiro trimestre de 2025, com um custo aproximado de US$ 4,1 milhõesEscândalos como as “dívidas ocultas”, que envolveram empréstimos secretos e garantias estatais ilegais, continuam a minar a economia e a confiança de cidadãos e investidores. 

Portugal (56 pontos), único país europeu da CPLP, também apresentou deterioração relevante. O país também perdeu dez pontos desde 2018. Apesar de iniciativas como a Agenda Anticorrupção e a criação do Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC) em 2021, persiste a percepção de estagnação. O GRECO, órgão do Conselho da Europa, tem reiterado a necessidade de mais medidas, especialmente no governo e nas forças de segurança. Casos de corrupção transnacional, como os Luanda Leaks e os desdobramentos da Operação Lava Jato, expuseram a vulnerabilidade do país a fluxos financeiros ilícitos. 

Entre São Tomé e Príncipe (45), Brasil (35) e Guiné-Bissau (21), o padrão da última década é de oscilações pontuais sem reformas estruturais duradouras. Variações de dois a quatro pontos ao longo dos anos não se converteram em trajetórias consistentes de integridade, mantendo esses países vulneráveis à captura por elites econômicas, redes criminosas e interesses extrativos. 

Apesar de estagnado, Cabo Verde (62) é o país mais bem avaliado da CPLP. O país adotou medidas para ampliar a transparência nas transações governamentais e empresariais, alinhadas aos compromissos assumidos no âmbito da Parceria para Governo Aberto (Open Government Partnership). Ainda assim, o ano judicial 2024/2025 registrou 37 casos de corrupção e 64 de peculato, demonstrando que a vigilância institucional precisa ser permanente.  

Quem melhorou: avanços reais, mas ainda insuficientes 

Angola (32) avançou 17 pontos desde 2015, impulsionada por ações de repressão à corrupção. Em 2025, mais de 400 processos-crime relacionados à corrupção e crimes conexos foram instaurados, e o país conseguiu recuperar mais de US$ 7 bilhões em ativos. Apesar disso, Angola permanece na parte inferior do índice, com ampla percepção social de que os esforços ainda são insuficientes e de que cidadãos comuns correm risco de retaliação ao denunciar irregularidades. 

Timor-Leste (44) foi o segundo país que mais avançou na última década, com uma melhora de 16 pontos desde 2015. O progresso, contudo, convive com desafios estruturais importantes como desvios milionários e interferência política no sistema de justiça e nos órgãos de combate à corrupção. Casos recentes envolvendo a entrada ilícita de grandes quantias em dinheiro e denúncias de crime organizado levaram a sociedade civil timorense — incluindo a Igreja Católica — a exigir investigações independentes e maior fortalecimento institucional.  

Corrupção transnacional: o elo invisível 

Grandes esquemas de corrupção envolvendo setores como infraestrutura, petróleo, mineração e defesa conectam países da CPLP entre si e com centros financeiros globais. Casos emblemáticos envolvendo empresas multinacionais, bancos, intermediários financeiros e elites políticas demonstram que a corrupção não respeita fronteiras, enquanto as respostas institucionais permanecem fragmentadas e majoritariamente nacionais. 

A Operação Lava Jato exemplifica essa dinâmica. A investigação revelou como a construtora Odebrecht estruturou um sistema de pagamento de propinas em pelo menos quatro países lusófonos — Brasil, Angola, Moçambique e Portugal — utilizando contratos de infraestrutura superfaturados e movimentando recursos entre sedes corporativas em São Paulo, obras em Luanda e contas bancárias em Lisboa. 

De forma semelhante, o caso Luanda Leaks expôs como Isabel dos Santos desviou bilhões de dólares dos cofres angolanos por meio de uma rede de empresas offshore, canalizando recursos principalmente para Portugal, onde concentrou investimentos nos setores bancário, energético e de telecomunicações. Já o esquema da família Obiang, na Guiné Equatorial, seguiu trajetória comparável, com recursos do petróleo lavados por meio da aquisição de imóveis de luxo em Portugal e no Brasil, além de contas bancárias em múltiplas jurisdições. 

Da análise à ação coletiva 

A corrupção na gestão dos recursos públicos reflete a falta de integridade política entre as lideranças, dificulta o acesso da população a serviços básicos e afeta diretamente o cotidiano — atingindo de forma desproporcional os grupos mais vulneráveis. Para melhorar a vida da população, os governos da CPLP precisam priorizar ações concretas, capazes de fortalecer a democracia, garantir a responsabilização de agentes públicos e proteger o espaço cívico.  

Para Ciro Reis, Coordenador da Transparência Internacional – Brasil, organização responsável pela secretaria-executiva da RedeGOV: 

A corrupção nos países de língua portuguesa não pode mais ser lida como uma sucessão de falhas isoladas, mas como um ecossistema transnacional que se alimenta da nossa inércia institucional coletiva. A nota média de 35 pontos que nos assombra há mais de uma década é o vergonhoso recibo de que as promessas de reforma foram, em grande parte, trocadas por retóricas de conveniência. Enquanto Cabo Verde nos serve de bússola ao demonstrar que a integridade institucional e a digitalização da justiça são escolhas políticas possíveis, vemos democracias consolidadas como Portugal atingirem seus piores patamares históricos, e países como Brasil e Angola conviverem com sinais persistentes de impunidade.” 

Os resultados do IPC 2025 reforçam a necessidade de respostas colaborativas e transnacionais. Nenhum país da CPLP conseguirá enfrentar sozinho redes de corrupção que operam entre continentes, jurisdições e sistemas legais. É nesse contexto que a RedeGOV se posiciona como uma iniciativa estratégica, conectando organizações da sociedade civil, jornalistas investigativos e especialistas jurídicos para transformar dados e evidências em litigância estratégica, advocacy internacional e pressão política coordenada. 

Sem cooperação estruturada, foco em casos transnacionais e proteção efetiva do espaço cívico, a próxima década corre o risco de repetir exatamente os mesmos resultados. 

Este texto integra uma série de análises produzidas no âmbito da RedeGOV –Fostering Collaborative Responses to Cross-Regional Corruption. 

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