
De que maneiras jornalistas que falam português podem trabalhar juntos realizando investigações e combatendo, de maneira integrada, a corrupção transnacional? Esse foi o mote de discussões ocorridas na 20ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que aconteceu em São Paulo (SP) no mês de julho.
Na ocasião, profissionais do Brasil, Guiné Equatorial, Portugal e Moçambique participaram de duas mesas em que sentaram juntos para refletir sobre o jornalismo na comunidade lusófona – tentando achar conexões e olhando os desafios e oportunidades de trabalho conjunto. O Congresso onde os debates aconteceram foi promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).
Jornalismo sob pressão
Na mesa “A reportagem na lusofonia – conexões e possibilidades”, os jornalistas Allan de Abreu (Brasil), Delfín Mocache Massoko (Guiné Equatorial) e Micael Pereira (Portugal) contaram sobre os bastidores de grandes investigações transnacionais como o Luanda Leaks, Lava Jato-África e o caso Zagope-Obiang.
Este último caso se refere à denúncia, protocolada na Controladoria Geral da União (CGU) há cerca de um mês, contra a construtora Andrade Gutierrez. Ela é acusada de pagar propinas para operar na Guiné Equatorial, em valores que chegam até 72 milhões de euros. O caso veio à tona num esforço conjunto de reportagem envolvendo o jornal português “O Expresso”, a revista brasileira “Piauí”, o “Diário Rombe”, da Guiné Equatorial, e o site do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, no original em inglês). Os materiais foram publicados em maio de 2025.
Já em “Panorama Geopolítico do Jornalismo Lusófono: fazer investigação sob pressão” os jornalistas moçambicanos Celestino Joanguete, Sheila Wilson e Luis Nhachote, assim como o angolano Rafael Marques de Morais, debateram sobre como fazer seu trabalho num cenário de legislações restritivas, assédio judicial e concentração de mídia; e como driblar esses problemas para fazer jornalismo investigativo em seus países.
Rede de investigação
A conexão entre os jornalistas que falam português foi promovida pela Rede GOV – uma coalização de doze instituições, de sete países diferentes, que vem trabalhando desde 2017 na formação de uma rede de investigação de casos de corrupção entre a comunidade lusófona. Em nosso país, essa rede é facilitada pela Transparência Internacional – Brasil.
Para o Coordenador do Centro de Conhecimento Anticorrupção da Transparência Internacional – Brasil, Ciro Reis, as discussões ocorridas no evento da Abraji foram importantes por permitir muitas interações e conversas entre profissionais de territórios distintos.
“O encontro presencial em São Paulo foi muito importante neste processo de montagem da rede de jornalistas investigativos, que é algo que estamos propondo. Nesses momentos a gente se conecta, troca informações e consegue buscar novos casos, ampliando e fortalecendo nosso trabalho”, disse Ciro.
Sete países
Entre as organizações que participam da Rede GOV estão a Associação Justiça, Paz e Democracia (Angola), o Centro de Integridade Pública de Moçambique, o Observatório da Democracia e Governança da Guiné-Bissau e a Transparência Internacional – Brasil e a Transparência Internacional – Portugal.
Atualmente, a Rede se dedica à formalização de seu funcionamento e à análise de dez casos diferentes de corrupção transnacional, todos em diferentes estágios de apuração e investigação.